Todd Terje e os três magos

Por Alex Kidd
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O produtor norueguês Todd Terje posa ao lado de um sintetizador ARP 2600.

Nesta sexta-feira (16), às 0h15, Todd Terje ativará sua máquina do tempo musical. Escalado para o Popload Festival, o DJ e produtor apresentará as músicas de “It’s Album Time”, seu disco de estreia. O álbum combina arranjos rebuscados com uma atmosfera alegre e despreocupada. Qualquer referência aos anos 1970 não é mera coincidência.

O norueguês é herdeiro direto de Giorgio Moroder, Cerrone e Gino Soccio, os produtores que ajudaram a definir os rumos da música eletrônica.  O trio foi pioneiro ao descobrir a combinação letal da disco music com sintetizadores. O caminho não foi fácil.

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Giorgio Moroder e Donna Summer.

GÊNESIS
A compositora americana Wendy Carlos pode até ser pioneira em fazer música sintética, mas foi o produtor italiano Giorgio Moroder quem popularizou a novidade. Em 1977, munido apenas de um sintetizador Moog e dos vocais lascivos de Donna Summer, Giorgio compôs “I Feel Love”, o marco zero do techno.

Divorciar a disco das suas raízes soul e funk foi um proposta ousada na época, mas colocou o nome de Moroder no mapa. A orgia sintética alcançou o sexto lugar na parada Hot 100 da Billboard e inspirou produtores no mundo inteiro.

O DONO DO RITMO
Enquanto Giorgio comandava o lado hedonista da pista, o francês Cerrone estava interessado em questões mais politizadas. A letra de “Supernature”, também composta em 1977, tinha preocupações ambientais e falava de um mundo pós-apocalíptico onde a natureza, cansada da falta de tato do homem, se rebela e extingue nossa espécie.

Cerrone era puro suingue.  Um exemplo está na épica “Sweet Drums” e seus 10 minutos de solos de bateria e timbres alienígenas. Alguns DJs apontam o nascimento do tribal house com o ritmo frenético de suas primeiras composições.

INJUSTIÇADO
O canadense Gino Soccio era dono de um som mais refinado. Seu maior hit “Dancer” mistura com elegância o glamour da disco europeia com a rispidez do R&B americano. Infelizmente o ápice criativo colidiu com o movimento “Disco Sucks” que tomou conta dos EUA no final dos anos 1970.

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O produtor Gino Soccio em seu estúdio.

Em 1979, na fatídica Disco Demoliton Night  em Chicago, o DJ de rádio Steve Dahl reuniu seus ouvintes para promover uma destruição coletiva de LPs de artistas disco. O boicote aos embalos de sábado à noite tomou conta da América. As rádios se voltaram para o rock e o pop. As gravadoras fecharam seus selos de dance music. Tudo isso para, trinta anos depois, dois robôs (!) franceses trazerem a euforia…

…DE VOLTA PARA O FUTURO
Em 2013, o Daft Punk mergulhou na nostalgia no álbum blockbuster “Random Acess Memories”. Nile Rodgers, mentor da banda Chic, tocou guitarra no megahit “Get Lucky” e em “Giorgio by Moroder” o produtor italiano foi convidado para relembrar sua carreira estelar numa espécie de biografia musical.

Na era do streaming, o disco vendeu mais de 3 milhões de cópias, abocanhou 5 Grammys e gerou uma onda retrô nas paradas de sucesso. De Bruno Mars a Justin Timberlake, todo mundo queria adicionar uma pitada de purpurina no caldeirão pop. Nas imagens de divulgação, os robôs apareciam vestidos de ternos Saint Laurent cravejados de lantejoulas. A disco havia ressuscitado.

Ouça playlist exclusiva com o melhor dos magos da disco.

O DISCÍPULO
Na mesma época e fora dos holofotes, Todd Terje construiu sua reputação fazendo versões extendidas de canônes da disco. O produtor irlandês enxugava e repetia infinitamente os grooves de clássicos como “I Want Your Love”, do Chic, e “You Should Be Dancing”, dos Bee Gees. 

Finalmente, em 2014 ele compilou todas essas referências em seu disco de estreia, ironicamente intitulado “It’s Album Time”. O resultado mostra que Todd fez a lição de casa.

Em uma só faixa (“Inspector Norse”, sem dúvida a música mais divertida dos últimos anos), o produtor misturou a batida pulsante de Cerrone, os synths urgentes de Moroder e o sabor refinado da ítalo-disco feita por Gino Soccio.

Sem medo de experimentar, o disco flerta com o jazz em “Alfonso Muskedunder” para depois cair na salsa em “Svensk Saas”. “Amo quando você consegue combinar o bizarro com o funcional”, disse o produtor em entrevista à revista “Spin”.

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Todd Terje retratado por Bendik Kaltenborn, ilustrador que assina as capas dos discos do produtor

A música de Todd não quer reviver uma época. No seu laboratório musical, o artista exagera no papel de cientista maluco e mistura fórmulas conhecidas para criar algo completamente novo. Ele faz disco music com senso de humor e, o mais importante, sem medo de soar um pouco brega. O discípulo aprendeu a lição.

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