“Não gosto de confundir doçura com fraqueza”, diz Silva

Por Alex Kidd
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Foto: Jorge Bispo

“Eu ouço música de todo canto, independente do país. Pode ser da Angola, do Japão, da Suécia…”. Foi sem preconceitos que o capixaba Silva, 27, fez um dos melhores discos do ano passado. “Vista pro Mar” mistura kuduro, sintetizadores e uma sonoridade que remete ao pop dos anos 1980.

A curiosidade levou o cantor para a Angola, onde filmou um curta-metragem retratando a cena musical do país, que é feita predominantemente nas ruas. “Me identifico muito com as culturas de periferia, inclusive eu venho da periferia, apesar de muita gente achar que sou grã-fino porque me formei em violino clássico”, esclarece.

Confira o bate-papo do 120 BPM com o Silva.

Suas músicas têm bastante influência da música eletrônica, especialmente do synth-pop. Você faria um disco mais eletrônico? Tem algum estilo favorito dentro do gênero?
Faria um disco mais eletrônico sim. Não sei se faria isso agora, mas uma hora vou. As coisas que eu mais gosto geralmente são as mais minimalistas e isso vai do house à música ambiente.

No “Claridão” você o usou o sintetizador TR-707. Quais outros synths você utilizou nos seus discos?
Eu gosto muito do Mini Korg 700s, do Roland Juno 60, Jx8p e do Prophet 08. Esses são os que eu sempre uso.

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Foto: Hick Duarte

Nos anos 80 tínhamos no Brasil o RPM, o Metrô, as produções do Lincoln Olivetti, com o som bem marcado nos teclados e synths. Estes artistas influenciaram sua sonoridade de alguma forma?
Bom, eu nasci no finalzinho da década de 80 e quando era criança o sintetizador estava naquela fase problemática (risos). As pessoas achavam brega e valorizavam demais as guitarras, principalmente no Brasil. Esses artistas me influenciaram sim, mesmo que indiretamente. O que eles fizeram foi muito importante e com certeza me pegou de alguma forma. Em 2013 eu toquei com o Lincoln Olivetti e foi uma experiência incrível. Ele foi uma figura muito importante para a nossa música.

“Noite”, tem bastante groove e um clima de festa. Esta vai ser a pegada do novo disco?
Estou compondo musicas novas e testando uns sons diferentes. Ainda não consigo dizer se essa vai ser a pegada, mas eu acredito que não.

Lulu Santos e o rapper Don L participam da canção. Como foi essa parceria? O disco contará com outras colaborações?
Foi a maior honra ter os dois comigo nessa faixa. O Lulu Santos com aquele timbre incrível e o Don L com a rima dele que é única. Ainda não sei quantas e quais serão as colaborações no próximo disco, mas já tenho algumas ideias em mente.

 

Ouça “Noite”

É interessante você gravar com o Lulu Santos porque vocês dois têm trajetórias parecidas, principalmente em relação a não ter preconceito em trazer referências gringas na hora de compor. Você acha que existe um receio dos artistas brasileiros em assumir estas influências estrangeiras?
Acho que o Brasil tem uma história musical muito forte e talvez isso acabe deixando algumas pessoas com restrições às coisas que vêm de fora. Eu ouço música de todo canto, independente do país. Pode ser da Angola, do Japão, da Suécia… Se me agradar eu não me importo com a nacionalidade, e isso com certeza influencia minha produção.

O disco novo tem lançamento previsto?
Não tem, mas estou torcendo para que eu consiga lançar ainda esse ano.

Você escuta outros artistas quando está compondo?
É difícil eu parar de ouvir música, mas quando estou compondo não gosto de ouvir uma coisa só ou grudar num disco específico, porque é tentador querer soar como aquilo.

Suas canções têm uma ingenuidade que tem aparecido com menos frequência na música brasileira. Você acha que perdemos este lado mais descontraído do pop?
Não gosto de confundir leveza com ingenuidade ou doçura com fraqueza. Ultimamente tenho visto um esforço de muita gente para soar visceral e não acho isso ruim desde que seja algo natural. Minha música vai ser sempre um reflexo de quem eu sou ou como estou no momento. Acho que perdemos a descontração do pop quando passamos a nos levar muito a sério. Eu vim de formação erudita e vi isso acontecer ao meu redor a minha vida toda. Não quero que meu trabalho vire uma grande prova de banca do conservatório.

No documentário “Angola” você mostra os dançarinos do kuduro, um estilo que nasceu nas ruas. Você vê algo similar acontecendo no Brasil?
Claro, a cultura do passinho tem várias semelhanças com o kuduro e também admiro muito. Escolhi gravar na Angola porque a música tinha muitas influências de lá e eu quis conhecer a cultura do kuduro de perto, fora da tela do computador. Me identifico muito com as culturas de periferia, inclusive eu venho da periferia, apesar de muita gente achar que sou grã-fino porque me formei em violino clássico e morei na Europa. Eu só soube aproveitar todas as oportunidades que tive.

 

Assista ao curta-metragem “Angola”, dirigido pelo cantor durante visita ao país este ano.

Hoje você consegue fazer música no celular e montar um estúdio caseiro com qualidade profissional, por exemplo. Você acha que a democratização das ferramentas encorajou os artistas a experimentarem mais?
Acho demais. O ambiente influencia muito o resultado. Eu me lembro de gravar cordas em estúdio quando tinha uns 15 anos e sempre aparecia alguém para dizer o que era certo e o que não era. Quando montei meu home estúdio fiquei finalmente livre dessas opressões (risos).

A internet trouxe um baú gigantesco de referências. Que dica você dá para que os novos artistas consigam focar e criar seu estilo próprio em meio a tantas opções?
É importante ter referências e ouvir muita música, mas para criar algo que tenha sua marca é indispensável esse elemento duvidoso que é a intuição e então trabalhar, produzir muito. Não é fazer duas musicas e achar que está bom. Nunca ache que está bom!

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