Instrumento que definiu o som de clássicos da música eletrônica ganha fabricantes no Brasil

Por Alex Kidd

O texto abaixo foi publicado originalmente na “Ilustrada”.

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress
Arthur Joly em sua oficina na Vila Mariana, cercado pelos sintetizadores que produz.

Nos fundos de sua casa, na Vila Mariana, em São Paulo, o músico Arthur Joly guarda uma espécie de disco voador.

Em meio a botões, luzes, ferramentas, circuitos e placas eletrônicas, ele mantém uma oficina com ares de ficção científica na qual constrói, sozinho, sintetizadores.

Criado na década de 1940, o instrumento que definiu o som robótico de artistas clássicos da música eletrônica, como os alemães do Kraftwerk e os ingleses do New Order, só recentemente passou a ter fabricantes no Brasil.

Embora os sintetizadores estejam presentes no país desde os anos 1960, com Os Mutantes e Jorge Antunes, precursor da música eletroacústica nacional, foi nos últimos cinco anos que três professores pardais passaram a montar e vender filtros, osciladores, envelopes e amplificadores –os módulos que formam os sintetizadores.

Muitas vezes ligados a teclados, os equipamentos transformam tensões elétricas em sons, desenhando timbres e criando barulhinhos.

Guitarrista e produtor musical, Joly, 37, é um desses três fabricantes –atua de maneira artesanal, por encomenda de amigos ou para consumo próprio. Os outros são Vinicius Brazil, da V Brazil, e Paulo Santos, da EMW (Eletronic Music Works) –ambos vendem em escala comercial.

Os clientes são músicos e produtores musicais.

Segundo profissionais ouvidos pela reportagem, há muitos que o fazem por hobby, mas apenas Santos, Brazil e Joly produzem para venda os módulos para sintetizadores no Brasil. As engenhocas que criam custam de R$ 600 (um módulo) a R$ 6.000.

AEROMODELISMO

Joly se divide entre a fabricação de sintetizadores e a criação de trilhas para peças publicitárias. Autodidata, se aventurou primeiro neste universo quando um amigo lhe mostrou um Minimoog, sintetizador analógico.

A partir dali, virou um colecionador –chegou a ter 35 modelos diferentes. Conheceu então um site com esquemas eletrônicos prontos e montou seu primeiro projeto. “Eu tinha experiência com solda por causa do aeromodelismo, então fiz um kit e deu certo”, relembra.

“Montei o ‘PolyJoly’ e postei um vídeo do projeto num site especializado. De repente, vários gringos estavam curtindo.” Partiu para a gigantesca parede de módulos e filtros “Jolymod”, na qual gastou R$ 25 mil –segundo ele, por inexperiência. Não parou mais.

Construído em um elegante gabinete de madeira, o modelo ressalta uma característica dos projetos de Joly: o design. Os instrumentos desenvolvidos pelo músico têm muito cuidado estético.

Um deles, realizado em uma caixa de acrílico que mostrava todo o esqueleto eletrônico de fios e placas, foi projetado para ser tocado dentro de uma piscina, parte de uma apresentação dos músicos Paulo Beto e Zopelar.

O plano de operar o sintetizador submerso naufragou –os músicos mergulharam, mas os instrumentos ficaram apenas sobre boias.

Para Paulo Beto, que usa tanto sintetizadores nacionais quanto importados, a vantagem de contar com um fabricante local é “trabalhar junto com o construtor”. “Assim é mais fácil buscar soluções práticas e inteligentes.”

O músico também destaca o custo, quase um terço menor do que importados. Isso não significa que os equipamentos sejam baratos, por conta dos componentes importados.

DISCO VOADOR

Como Joly atua de maneira artesanal, em seu site (recosynth.com) ele recomenda a VBrazil (vbrazil.eng.br), de Vinicius Brazil, 61, engenheiro eletrônico que começou a projetar pedais para guitarras na década de 1960.

Naquela época, diz o carioca, só ele e Cláudio César Dias Baptista, irmão de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, d’Os Mutantes, se aventuravam em projetos de sintetizadores.

Hoje, paralelamente a sistemas de controle para indústria, ele voltou a desenvolver módulos. “Prezo pela qualidade sonora. O equipamento tem que atender a todas as situações. Precisa ter um som puro, mas se quiser fazer barulho, ele vai fazer”, diz Brazil.

Os sons alienígenas que um sintetizador pode produzir já viraram piada entre fabricantes. Arthur Joly conta já ter ouvido muitas vezes que “possui um disco voador, mas só o usa para ir ao supermercado”, ou seja, para tocar músicas mais tradicionais.

MUITO CHATO

Na mesma linha de Brazil está Paulo Santos, o único que produz em escala industrial, cujos primeiros projetos foram concebidos no meio dos anos 1980.

Proprietário da EMW (Eletronic Music Works, electronicmusicworks.com), Santos começou a produzir comercialmente apenas em 2011, porque se reconhece “muito chato, muito crítico com aquilo que produz”.

Seus equipamentos procuram reproduzir o timbre dos sintetizadores antigos, fruto da paixão pelo Kraftwerk e bandas posteriores, como o Human League. O paulista de Amparo diz vender muito mais para clientes do exterior, inclusive com revendedores no Japão.

“Faço isto porque gosto. Se for pensar em termos de investimento, de retorno, como empresário, eu jamais faria isto. Porque não compensa.”

Joly concorda. “Se pensar no quanto de metal que tem aqui, o marceneiro e o imposto sobre placa, acaba quase empatando com os custos.”

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